‘Ou caminhamos juntos contra essa vilania que abastarda a política ou estaremos condenados a uma eterna cidadania de segunda classe’, afirmou procurador-geral na abertura de seminário em Brasília.

O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, reagiu nesta segunda-feira (19) a críticas de que a Operação Lava Jato e o Ministério Público tentam instalar um “Estado policial” no país.

Na abertura de um seminário no Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP), em Brasília, Janot fez um discurso no qual atacou a “hipocrisia” dos críticos.

“Basta de hipocrisia. Não há mais espaço para a apatia. Ou caminhamos juntos contra essa vilania que abastarda a política ou estaremos condenados a uma eterna cidadania de segunda classe, servil e impotente contra aqueles que deveriam nos representar com lealdade”, disse.

No discurso, sem citar nomes, o chefe do MP disse que há dois tipos de pessoa que criticam o Ministério Público pelo trabalho que tem feito contra a corrupção.

“Os primeiros nunca viveram em uma ditadura. Eu vivi. Não conhecem por experiência própria o que representa uma vida sem liberdade. Militam portanto na ignorância. Para esses o esclarecimento dos fatos é mais que suficiente”, disse.

“Mas há também aqueles que operam no engodo, os que não têm compromisso verdadeiros com o país. A real preocupação dessas pessoas é com a casta privilegiada da qual fazem parte. Empunham estrepitosamente a bandeira do Estado de direito – que vergonha – mas desejam mesmo é defender os amigos poderosos com os quais se refestelam as regalias do poder”, declarou.

Segundo o procurador-geral, “para essas figuras não há esclarecimento suficiente, porque a luz os ofusca. Fogem da verdade com o pavor dos que vivem no embuste. Escondem-se nas cavernas sombrias dos seus mesquinhos interesses”.

Janot disse que a sociedade está “exausta” e que os brasileiros “serão fortes para repudiá-los mesmo por detrás das fantasias cuidadosamente urdidas para enganá-los”.

Gilmar Mendes

O ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), tem feito críticas reiteradas aos métodos dos procuradores da Operação Lava Jato.

Nesta segunda-feira, ao participar de um evento com empresários em Recife, apontou supostas tentativas de se instalar um “Estado policial” no país.

“Investigação sim, abuso não. Não se combate crime, cometendo outro crime. E é preciso que a sociedade diga isso de maneira clara. Estado de direito não comporta soberanos. Todos estão submetidos à lei”, declarou, em palestra promovida pelo Grupo de Líderes Empresariais de Pernambuco (Lide-PE), no Recife.

Mendes criticou sobretudo investigações dos ministros do Superior Tribunal de Justiça (STJ) Marcelo Ribeiro Navarro Dantas e Francisco Falcão. Segundo a PGR, o primeiro foi nomeado pela ex-presidente Dilma Rousseff para soltar executivos da Odebrecht.

“Isso vai dar em alguma coisa? Claro que não. Isso era para constranger a pessoa, o tribunal e a magistratura”, disse, acrescentando que objetivo era colocar medo nas pessoas.

“Não se pode aceitar investigações na calada da noite. Arranjos e ações controladas, que têm como alvo o próprio presidente da República”, declarou. “Nós não podemos despencar para um modelo de estado policial.”

Na palestra, Mendes criticou a ideia de que juízes e promotores poderiam ocupar o lugar de políticos.

“É preciso que se respeite o Congresso Nacional. É preciso que se respeite a política. Vamos abominar, sim, as más práticas, mas não se faz democracia sem política e sem políticos. E isto precisa ser reconhecido e reconhecido pelas instituições”, afirmou.

“Os autoritarismos que nós vemos aí já revelam que nós teríamos, não um governo, mas uma ditadura de promotores ou de juízes”, disse. (G1)