Uma empresa no centro de Genebra fez a gestão de uma “conta conjunta” de dois ex-presidentes da Câmara presos, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN) e Eduardo Cunha (PMDB-RJ). A Suíça repassou a procuradores brasileiros detalhes das transações de Alves, há um ano. Ele era investigado em Berna desde fevereiro de 2016 por lavagem de dinheiro e corrupção passiva.

Alves pode ter transferido o dinheiro para contas no Uruguai e Dubai. A defesa de Alves alega que ele usou um escritório de advocacia no Uruguai para abrir a conta bancária em 2008, a Posadas&Vecino. A reportagem visitou o endereço da Posadas&Vecino em Genebra. O local é uma sala alugada em um escritório. A empresa é registrada nas Ilhas Virgens Britânicas.

Henrique Alves foi preso nesta terça-feira (6) pela Polícia Federal dentro da operação Manus, desdobramento da Lava Jato no Rio Grande do Norte.

O ex-ministro é suspeito de receber R$ 7,15 milhões em propinas, diretamente ou via diretório estadual do PMDB. Alves já havia negado a acusação da Procuradoria.

O dinheiro, supostamente pago via caixa dois à campanha de Alves ao governo do RN em 2014, teria origem em contratos com empreiteiras como Carioca, Odebrecht, e, principalmente, OAS, responsável pela construção da Arena das Dunas, em Natal, feita para a Copa de 2014.

Os investigadores afirmaram que a obra teve sobrepreço de R$ 77 milhões, sendo parte destinada a Alves. Disseram ainda que há indícios de ação constante do ex-ministro para dificultar a apuração de irregularidades na Arena Dunas, atrasando o levantamento dos desvios.

Segundo os investigadores, a OAS pagou R$ 650 mil diretamente a Alves e R$ 3 milhões ao diretório estadual do PMDB. A Odebrecht, via caixa 2, pagou outros R$ 3 milhões. A Carioca Engenharia repassou R$ 400 mil. A Andrade Gutierrez, mais R$ 100 mil.

O sucessor de Alves na presidência da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), preso desde outubro no Paraná, também foi alvo de mandado de prisão. Os pedidos foram expedidos pela Justiça Federal do Rio Grande do Norte, que usou informações fornecidas na delação premiada dos executivos da Odebrecht.

De acordo com os investigadores, o ex-ministro chegou a emprestar a Cunha uma conta na Suíça para receber mais de R$ 2 milhões de propina.

O secretário de Obras de Natal, Fred Queiroz, também foi preso, e o cunhado de Alves, Arturo Arruda, levado para depor coercitivamente.

Alves, que sempre fez parte do núcleo de confiança do presidente Michel Temer, pediu demissão em junho de 2016, após citação em delações. Ele também foi ministro no segundo governo Dilma Rousseff na pasta do Turismo.

O ex-ministro foi o terceiro a deixar o governo interino de Temer, em 34 dias de gestão. Antes dele, foram demitidos Romero Jucá (Planejamento) e Fabiano Silveira (Transparência), após o vazamento de gravações em que ambos criticaram a Operação Lava Jato.

Alves é o terceiro ex-presidente da Câmara a ser preso nos últimos cinco anos -além de Eduardo Cunha, João Paulo Cunha (PT) foi preso após condenação no mensalão.

REINCIDENTE

No mesmo dia da prisão do ex-ministro, ele e Cunha foram alvos de outros pedidos de prisão feitos pela Justiça Federal no DF nas operações Sepsis e Cui Bono? Elas apuram fraudes no fundo FI-FGTS.

O Ministério Público no DF afirmou haver relatos de movimentação financeira no exterior de 2011 a 2015, quando teriam ocorrido desvios de recursos do FI-FGTS por parte da organização criminosa.

Os pedidos de prisão chegaram na segunda (5) à PF no RN, que já tinha em mãos os mandados expedidos contra os dois políticos. Dessa maneira, foi decidido que seriam cumpridos juntos.

Mais três pedidos de prisão foram decretados contra investigados que supostamente ajudavam na movimentação de dinheiro ilícito no exterior.

Um deles tinha como alvo José Augusto Ferreira dos Santos, fundador do BVA, detido em maio pela Lava Jato.O advogado o ex-ministro Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), Marcelo Leal, não quis se manifestar. Mas em ocasiões anteriores, o peemedebista já havia negado ter recebido doações ilegais.

Defesa

Ticiano Figueiredo, que atua na defesa de Eduardo Cunha (PMDB-RJ), disse que a decretação da prisão “expõe as vísceras de uma estratégia adotada na Lava Jato e replicada nos Estados de se utilizar de pirotecnia para expor os investigados e pressioná-los perante a sociedade”.

OAS e Carioca Engenharia informaram que não vão se manifestar. A Odebrecht informou que está colaborando com a Justiça e que “está comprometida a combater e não tolerar a corrupção”.