Político de 39 anos é o presidente mais jovem a assumir o comando do Palácio do Eliseu. Primeira viagem internacional será visita à chanceler alemã Angela Merkel.

A França empossou seu novo presidente na manhã deste domingo (14). O centrista Emmanuel Macron, de 39 anos, recebeu o cargo do socialista François Hollande em uma cerimônia reservada no Palácio do Eliseu. Ele chegou ao poder após a vitória sobre a candidata da extrema-direita Marine Le Pen no último dia 7.

Em seu primeiro discurso após ser empossado, Macron prometeu superar as divisões da sociedade, mostradas na campanha eleitoral e buscar a construção de uma França forte e segura. “A divisão e as fraturas em nossa sociedade devem ser superadas. O mundo e a Europa precisam mais do que nunca da França e de uma França forte, que fala em voz alta pela liberdade e pela solidariedade”, declarou Macron.

Ele afirmou ainda que os franceses o elegeram pela “esperança” que representa e seu “espírito de conquista”, segundo a Rádio França Internacional.

Cerimônia

O carro transportando Emmanuel Macron chegou pontualmente às 10h (5h, no horário de Brasília) ao palácio e ele pisou no tapete vermelho dois minutos depois e foi recebido por François Hollande que o esperava no hall de entrada com um sorriso. O eleito caminhou lentamente ao encontro do presidente que deixa o cargo. Os dois trocaram um aperto de mãos, se voltaram aos fotógrafos e depois adentraram ao palácio.

Como acontece nos Estados Unidos, um momento alto da transmissão de cargo na França foi a comunicação da senha de lançamento da bomba nuclear. Logo depois de chegar ao Eliseu, Hollande e Macron se reuniram a sós no gabinete presidencial por cerca de 40 minutos em um momento considerado solene. Eles trocaram informações sobre alguns segredos de Estado, e o presidente em fim de mandato faz algumas recomendações que considera importantes. Em seguida, Macron visitou o Posto de Comando Júpiter, uma espécie de bunker na ala leste do palácio capaz de resistir a um ataque nuclear.

Às 11h08 no horário local, o agora ex-presidente François Hollande deixou o Palácio do Eliseu sob aplausos. Um carro o aguardava no tapete vermelho e o conduziu para fora do palácio com o aceno de Emmanuel Macron.

Antes, os dois conversaram a portas fechadas por cerca de uma hora e trocaram informações sigilosas, de acordo com a Rádio França Internacional.

Ao contrário do Brasil, o presidente francês não faz um juramento. Macron foi condecorado exatamente às 11h24 no horário local (6h24 em Brasília) com um colar de ouro de Grão Mestre da Legião de Honra e foi declarado presidente da República em plenos poderes no cargo.

A curiosidade desta vez foi que Emmanuel Macron chegou sozinho, sem a mulher, Brigitte. O detalhe parece insignificante, mas não é. Tradicionalmente, os presidentes franceses casados chegam de carro acompanhados de suas esposas. A razão dessa escolha do cerimonial foi que o socialista François Hollande não tem companheira oficial morando com ele no Eliseu. Ele namora a atriz Julie Gayet, mas ela nunca assumiu responsabilidades oficiais.

As cerimônias continuarão com uma saudação à Guarda Republicana, 21 tiros de canhão disparados na esplanada dos Inválidos, um desfile de carro pela avenida do Champs Elysées até o Arco do Triunfo e um almoço para um seleto grupo de convidados.

Ainda neste domingo, Macron se reúne com uma delegação do Comitê Olímpico Internacional, que estará em Paris a partir de domingo para uma visita de três dias, visando a atribuição da cidade sede dos Jogos Olímpicos de 2024. A capital francesa concorre com Los Angeles, nos Estados Unidos.

Ele ainda fará um outro discurso, no final da tarde, na sede da prefeitura de Paris, com transmissão nos telões instalados na esplanada do governo municipal.

Primeira viagem e escolha no governo

Na segunda-feira (15), Macron faz sua primeira viagem internacional como presidente. Ele segue para Berlim e vai encontrar a chanceler Angela Merkel. O fortalecimento da União Europeia e da zona do euro devem ser temas principais. A Alemanha como primeiro destino oficial é uma tradição entre novos presidentes franceses.

Segundo fontes próximas ao novo presidente ouvidas pela agência Reuters, a nomeação do próximo primeiro-ministro deve ser anunciada na segunda-feira (15) com início dos trabalhos de governo no dia seguinte.

Quem é Macron?

O mais jovem presidente eleito da França, Emmanuel Jean-Michel Frédéric Macron tem 39 anos e nasceu em 21 de dezembro de 1977, em Amiens, filho de uma médica e um médico professor de neurologia. Considerado um aluno exemplar, sempre se destacou nos estudos desde muito jovem e é formado em Filosofia, com mestrado em políticas públicas, e graduado na Escola Nacional de Administração, onde ficou entre os cinco primeiros de sua turma.

Criado em uma família com tendências políticas de esquerda, foi membro do Partido Socialista entre 2006 e 2009, mas hoje é considerado um político de centro. Ele mesmo afirma que “nasceu na esquerda e que isso ajudou a formar certas convicções”, mas o jornal “Le Monde diz que Macron “provoca ironia da esquerda e curiosidade da direita” e o cientista político Rémi Lefebvre afirma que “ele tem uma vantagem: vem da esquerda e agrada a direita”.

Emmanuel Macron é casado desde 2007 com Brigitte Trogneux, 24 anos mais velha do que ele. Os dois se conheceram quando ele tinha 15 anos e ela era sua professora de francês e teatro.

Então casada e já mãe de três filhos, ela recusou as investidas do aluno por anos, até que finalmente aceitou um pedido de namoro quando ele completou 18 anos.

Macron estudou filosofia na Universidade de Paris X – Nanterre, concluiu um mestrado em políticas públicas no Instituto de Estudos Políticos de Paris, e depois se formou na Escola Nacional de Administração em 2004. Em seguida, passou a trabalhar na Inspeção-Geral de Finanças.

Antes de iniciar sua carreira política, Macron foi sócio do banco Rothschild e se tornou milionário ao intermediar a compra de uma unidade da Pfizer pela Nestlé, em 2012 (estima-se que ele ganhou 2 milhões de euros no banco, de acordo com o “The Guardian”). Pouco depois deixou o emprego para se tornar secretário-geral adjunto da Presidência da República, nomeado por François Hollande.

Esse período rendeu a Macron o apelido de “banqueiro”, adotado por seus adversários, ao qual ele responde lembrando que abriu mão de um emprego extremamente lucrativo e aceitou uma significativa redução de salário para se unir à equipe do até agora presidente François Hollande e trabalhar pela França, como secretário-geral adjunto da Presidência da República.

Em 2014, foi nomeado ministro da Economia pelo primeiro-ministro Manuel Valls. Durante seu período como ministro, Macron foi classificado como um pró-reformista e favorável a empresas. Ele foi criticado por questionar a jornada semanal de trabalho de 35 horas, um ponto de honra do socialismo francês, e se posicionar contra um imposto para milionários, dizendo que isso transformaria a França em “Cuba sem o sol”.

Ele saiu do governo em agosto de 2016, quatro meses depois de anunciar a criação de seu próprio partido, o centrista En Marche! Em novembro do mesmo ano lançou sua candidatura à presidência, sem jamais ter concorrido a nenhum cargo eletivo antes.

Propostas na campanha

Em seu programa de governo, Macron promete “tolerância zero” contra o crime e o combate ao terrorismo. Para os próximos 5 anos, ele propõe reforçar a guarda de fronteira, criar de 10 mil postos de policiais e 15 mil vagas em prisões para abrigar pessoas envolvidas com terrorismo.

Embora proponha maior controle nas fronteiras, Macron defende engajamento com a União Europeia e diz assumir sua “justa parte” na acolhida de refugiados diante da maior crise na imigração que o continente enfrenta desde a 2ª guerra mundial. Ele defende uma reformulação das condições de pedido de asilo e promete uma decisão em oito semanas para todos os pedidos.

O candidato quer reduzir o imposto que incide sobre as empresas (de 33,3% para 25%) para tornar o país mais competitivo e reduzir as despesas públicas progressivamente até atingir o nível recomendado pela União Europeia.

Ele propõe alterar a cobrança do imposto sobre grandes fortunas – visto como bandeira da esquerda – e exonerar 80% dos lares franceses do imposto sobre moradia. Macron tem ainda uma proposta de mudança no seguro desemprego: os desempregados teriam que passar por uma avaliação de competência e seriam obrigados a aceitar uma vaga de trabalho quando recebessem uma segunda oferta. (G1)