Política de campeões nacionais remontava década de 1950. Reformas devem visar a melhora sustentável no longo prazo

A DUPLA NATUREZA DA CRISE ECONÔMICA

Em breve será oficializado o 2º ano de queda consecutiva do PIB, a última vez que isto aconteceu foi na época da Grande Depressão, mais precisamente no biênio 1930-31. Fica mais assustador quando lembramos que em 1932 o PIB cresceu 4,3%, número que ninguém espera para 2017. Pode ser estranho imaginar um país que cresceu 7,5% em 2010 ter caído tanto em tão pouco tempo, mas a verdade é que aquele crescimento de 2010 já era um sinal do futuro que nos aguardava.

O Brasil vive duas crises econômicas. A primeira começou em meados da década de 1970 e é caracterizada pelo baixo crescimento de nossa produtividade. Pelos dados da Penn World Table, a produtividade do Brasil em 2014 era 5% menor que 1970, na Coreia a produtividade em 2014 era 90% maior que em 1970 e nos EUA era 42% maior. Estudo do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) com dados da economia brasileira e ajustes adequados por preços, publicados em 2 volumes chamados “Produtividade no Brasil: Desempenho e Determinantes”, chegam a resultados menos dramáticos, mas a conclusão continua sendo que nossa produtividade é baixa e cresce pouco.

Resolver o problema da produtividade exige medidas de longo prazo. É preciso melhorar o ambiente de negócios, reformar o sistema de educação e construir uma infraestrutura apropriada. Nada disso é fácil. O ambiente de empreendimentos ruins dificulta a transformação de ideias em negócios, que é o motor do crescimento da produtividade, mas beneficia grupos estabelecidos que podem perder com a concorrência dos novas organizações. Melhorar a educação envolve contrariar sindicatos e outros grupos de interesse. Melhorar a infraestrutura envolve mudar nossa regulação e redefinir os gastos públicos, na prática significa reestruturar agências reguladoras, repensar regras de proteção do meio ambiente, do trabalho e da concorrência e uma reforma fiscal. Nada disso é fácil e nada disso é rápido.

No começo da década de 1990 começamos uma ambiciosa agenda de reformas visando aumentar a produtividade. A época das reformas reverteu a queda da economia que tinha marcado a década de 1980 e viu melhoras generalizadas nos indicadores sociais. Parece não ter sido o bastante e por volta de 2006 começamos a abandonar as reformas em nome de um projeto de crescimento conduzido pelo Estado. Paramos de falar em reformas e começamos a apostar no PAC (Programa de Aceleração do Desenvolvimento), no BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento) e seus campeões nacionais, em projetos gigantescos ligados à Petrobras e grandes obras nacionais. Parecíamos estar de volta à década de 1950.

A crise de 2008 foi a oportunidade que o governo usou para abandonar de vez as reformas. Com o mercado em descrédito era o momento da volta do governo grande, mas para isso era preciso impressionar. Assim o governo abusou dos estímulos em 2010 para conseguir o crescimento de 7,5%. A estratégia parecia dar certo, governos e empresários começaram a acreditar que viveríamos um novo milagre brasileiro. Dilma toma posse em 2011 dizendo que seria a presidente do “PIBão”. A festa durou pouco, o governo forçou demais nos estímulos à economia. No lugar de aproveitar o crescimento para reduzir o gasto em proporção do PIB o governo permitiu que o gasto continuasse crescendo mais que o PIB. O plano de abaixar as taxas de juros na marra acabou por tirar credibilidade do Banco Central. Foi assim que tentado esconder a falta de crescimento o governo nos colocou no que pode ser a maior crise de nossa história.

Sair da crise não será fácil. Tanto as reformas quanto as medidas para combater a estagflação exigem sacrifícios. É verdade que passos importantes foram dados com o controle da inflação ainda em 2016 e com a aprovação do teto de gastos. Porém, mesmo que o governo consiga estabilizar a economia, recuperar a credibilidade do Banco Central e ajustar as contas públicas estará dando soluções apenas para a crise de curto e médio prazo. Para sairmos da crise de longo prazo precisamos retomar a agenda de reformas, ou seja, se tudo der certo estaremos de volta a 2006.

O autor do texto, Roberto Ellery, 45 anos, é doutor em Economia pela Universidade de Brasília (UnB). Mestre em Economia pela Universidade da Pensilvânia e pela FGV-RJ. Professor Associado no Departamento de Economia da UnB. Foi pesquisador do IPEA. Atuou em consultoria junto ao Banco Mundial, ao Banco Central, ao IPEA e outras organizações. Desenvolve pesquisas nas áreas de finanças públicas, ciclos econômicos e teoria do crescimento. Atualmente é diretor da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Gestão de Políticas Públicas da UnB.